Baiana chamada de ‘preguiçosa’ e ‘macumbeira’ por influencer vai à Justiça


A baiana de axé, Eliene de Jesus Sousa, 48 anos, vai entrar na Justiça contra os influencers que a chamaram de “preguiçosa” e “macumbeira”, na última segunda-feira (15). “Estou indignada, revoltada, constrangida e vamos prestar queixa. Só estamos esperando a resposta do advogado”, conta a baiana.

A situação aconteceu no Pelourinho, Centro Histórico de Salvador. Segundo ela, é a primeira vez que isso acontece. “Trabalho no Pelourinho há mais de 10 anos e nunca tive problema com turista”, declara. Ela não ouviu os comentários ao vivo, no momento em que foi feita a gravação, só depois, pela internet. “Nem percebi que eles estavam filmando”, completa.

Os dois amigos – um deles, o lutador e influencer Ludvick Rego – pediram desculpas nas redes sociais após a repercussão do caso. Para Eliene, eles reconheceram que estavam errados. “Se estão pedindo desculpa, é porque sabem que agiram errado, mas agora é tarde para pedir desculpa. Eles vão pagar perante a Justiça”, afirma Eliene.

O irmão de Eliene, o empresário Nelson Gonçalves, cuida das tratativas legais. “Vi ali inúmeros crimes, como preconceito racial e exposição de imagem. Vamos conversar com o advogado para rever essa situação e tudo que eles falaram para denegrir a imagem dela vai entrar na pauta”, explica Gonçalves.

Ele também se demonstrou extremamente revoltado com a situação. “A gente luta muito contra esse sistema e não vamos permitir que isso aconteça em pleno século 21. Minha irmã é baiana de axé, de Umbanda, registrada na prefeitura, não é nenhuma maloqueira. Não estamos atrás de mídia, e sim de justiça”, confessa o irmão da vítima, que também é militante.

O empresário ainda pontua que a retratação tem que acontecer para evitar que esses crimes se repitam com outras baianas. “Não vou deixar falarem assim de minha irmã, porque, como foi com ela, poderia ser com qualquer um. Eu nunca cheguei no estado de ninguém para sair denegrindo a imagem dos outros. Ele falou da nossa pele, da nossa raça, da nossa cultura, e estamos cansados de ver o pessoal de fora falar isso do povo da Bahia”, desabafa Nelson Gonçalves.

A Polícia Civil disse que desde o dia do vídeo, não consta ocorrência com o nome de Eliene Jesus Souza. Um dos homens que aparece no vídeo, Ludwick Rego, foi contatado pelo Instagram, mas também não respondeu. O outro turista do vídeo ainda não foi identificado.

O Ministério Público da Bahia (MP-BA) informou que abriu procedimento de notícia de fato para apurar o caso. “Segundo a promotora de Justiça Sara Gama, ofensa em razão da origem pode configurar crime de racismo. Possível ato de intolerância religiosa também se encaixa na Lei n° 7661/89”, esclarece o órgão.

Retratação
O vídeo viralizou nas redes sociais, com baianos revoltados com a postura da dupla. Após o barulho, os dois, que são do Rio de Janeiro, gravaram um vídeo juntos, onde apresentam sua versão dos fatos.

“Viemos aqui pedir desculpas ao povo da Bahia, Pelourinho e axé. Em nenhum momento quisemos ofender. Estávamos em uma brincadeira. Aquela mulher estava ‘vendendo axé’, e quem é da religião sabe que axé não se vende. Benção se dá”, começaram.

“Em nenhum momento quisemos denegrir a imagem da Bahia ou dos baianos. Também queremos deixar claro que a mulher não era vendedora de acarajé. Ela queria benzer minhas guias, vendendo axé. Foi aí que começou a brincadeira. Viemos pedir desculpas a todos que se sentiram ofendidos: baianos, povo do axé, vendedoras de acarajé”, disse Ludwick.

Já o outro homem reclamou de supostas ameaças que vem sofrendo, dizendo que isso “não precisa ocorrer”. “Peço desculpas ao povo da Bahia, que amo e tenho muitos amigos. Desculpa a todos”, pediu.

Repercussão
Em nota,  Associação Nacional das Baianas de Acarajé se solidarizou com a vítima, mesmo que ela não seja uma baiana. “Alertamos a todo instante sobre a importância em não disseminar o racismo, preconceito e forma perversa de dar continuidade aos maus tratos que só geram dores e tristezas”, começou o comunicado.

“Viemos em público acolher essa senhora, que não é Baiana de Acarajé, mas ganha seu sustento no ponto turístico de Salvador com seu dom de cura com as folhas e boas energias, acolhendo baianos e turistas que solicitam seu serviço. Por tanto Senhor Ludvick e toda sua cúpula que compactua em continuar as chibatadas em nosso povo de negro, de axé e que ganha o sustento da sua família com trabalho digno, merece nosso total respeito e empatia, não vamos tolerar essa sua afirmação tão absurda e cheia de deboche. O Novembro Negro existe para que pessoas como você se eduque e busque dissolver o racismo estrutural para que o mesmo não seja reproduzido”, disse a associação.

Informações do Correio 24 Horas

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